CBMA

Centro de Biologia Molecular e Ambiental

Centre of Molecular and Environmental Biology

Quem somos # Célia Pais PT

 

Imperdoável

foi o que não vivi

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Viveu intensamente a juventude e o seu percurso recheado de indecisões assemelha-se ao dos jovens de hoje. Atualmente, é professora no Departamento de Biologia da Universidade do Minho e membro integrado do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA), onde faz investigação em microbiologia de leveduras. Quem a conhece, destaca-lhe o sorriso, a “boa onda” e a mente aberta. Ao longo da sua carreira académica ocupou vários cargos de direção, mas a sua primeira experiência de gestão teve alguns percalços.

Jeremias o Fora-Da-Lei

Nascida no Algarve, na década de cinquenta, Célia Pais frequentou o Liceu de Portimão. No primeiro ano não havia caras conhecidas na sala, mas isso não impediu que fosse eleita delegada, algo que, aliás, se viria a repetir nos anos seguintes. Uma das funções que lhe competia era a venda da revista Fagulha, uma publicação quinzenal do Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa Feminina. Cada revista custava 1$50.

Não estava habituada a gerir dinheiro e gastei tudo o que recebi pelas revistas, em rebuçados e chocolates. Chegada a altura de apresentar contas, já não tinha dinheiro.”  Mais tarde, em casa, contou aos pais, que acabaram por repor a falta. Na escola nunca se soube. “Foi o meu primeiro e único desfalque, mas aprendi bem a lição”, diz sorridente.

Esse pequeno incidente, aos 11 anos, não manchou a sua reputação e Célia Pais esteve seis anos, como diretora do departamento de Biologia e foi a primeira diretora da licenciatura em Biologia Aplicada, cargo que ocupou durante três anos. Foi ainda, vice-presidente da Escola de Ciências, durante quatro anos, e mais recentemente, de 2012 a 2014, voltou à direção do departamento. “Nesses anos, dediquei muito tempo ao departamento e ao ensino e acabei por deixar a investigação para segundo plano. Tive a sorte de ter alunos de doutoramento excecionais, que contribuíram muito, para apoiar esta falta de tempo para a investigação.” Salienta Paula Sampaio, Alexandra Correia e mais recentemente Raquel Sabino e reconhece que foram os seus trabalhos de doutoramento, que vieram consolidar a investigação, que ainda hoje realiza, na área da saúde e infeções fúngicas.

Alexandra Correia, investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S) diz que foi com ela que se iniciou na investigação e adorou. “A sua postura, enquanto orientadora, era irrepreensível, preocupava-se muito com os alunos e com o seu futuro na investigação. Nunca nos viu como mera mão-de obra. Ainda hoje somos grandes amigas. É alguém por quem nutro imensa estima, e é graças a ela, que ainda hoje continuo na ciência. 

Essa miúda

Foi sempre melhor aluna a letras, mas resolveu seguir as pegadas da sua irmã e foi para ciências. Para além disso, a biologia e a medicina eram algo que a fascinava.  No entanto, a escola ficava perto da praia e mal chegava o bom tempo, o sol e o mar falavam mais alto. Naquele sétimo ano do liceu, não se aplicou muito nos estudos e embora tivesse boas notas a ciências, não teve nota para entrar diretamente na universidade. Decidiu arranjar um emprego.

 Corria o ano de 1971 e foi para Lisboa trabalhar como estagiária no jornal “A Capital”. A sua intenção não era a de trabalhar como jornalista, mas sim fazer trabalhos de tradução, já que as notícias chegavam ás redações, em francês e inglês, vindas das agências noticiosas. No entanto, como não tinha um curso de letras, acharam que o mais adequado seria ficar na Redação.

 Escreveu artigos de moda, fez reportagens sobre futebol (do qual pouco entendia) e chegou inclusive a entrevistar a Tonicha, vencedora do festival da canção nesse ano.  Quanto aos horóscopos, costumava ir buscar inspiração a outras publicações. Embora tenha sido uma aventura, a adaptação não foi de todo fácil. Aos 18 anos, Lisboa tinha muitos segredos e por vezes chegava a pedir um carro para se deslocar a lugares de reportagem, que afinal, eram já ali ao fundo da rua. “Decidi que não era aquilo que queria fazer e voltei para Portimão”.

 Deixa-me rir

 No Algarve o turismo estava em expansão e surgiam várias agências interessadas em vender propriedades. Então, através de um amigo do seu pai, foi trabalhar para uma imobiliária situada na Praia da Rocha. Percebeu desde o início que não era aquilo que queria, no entanto, o seu pai não a deixava abandonar o emprego. “A solução que encontrei foi ser despedida”.

Célia organizava com frequência festas no escritório da agência, colocava música e convidava os amigos, mas nunca conseguiu ser despedida. Decidiu então, que o melhor seria aplicar-se nos estudos e entrar para a universidade. No ano seguinte ingressou na licenciatura em Biologia na Universidade de Coimbra. 

 Portugal, Portugal

Em Portugal os tempos eram agitados. Vivia-se o 25 de Abril.  Na universidade, Célia Pais participava em assembleias magnas, comissões académicas, festivais de cinema e todo o tipo de atividades culturais. Apesar dessa atividade frenética, era boa aluna e recorda na vida académica de Coimbra, a presença de pessoas inspiradoras, como o professor Pato de Carvalho, o professor Jorge Paiva e o professor Vítor Madeira. 

 Na Biologia enveredou pela via científica. Ser professora, não estava nos seus planos, experiência que tinha tido por três meses, entre o estágio no jornal “A Capital” e o trabalho na agência imobiliária. No final do curso, veio para o Minho juntamente com duas colegas, a Teresa e a Olga, que atualmente são professoras no departamento de Biologia. Foi em Coimbra que iniciou a sua carreira científica na nematologia, mas foi o Imperial College onde esteve de 1980-82 que lhe deu uma visão completamente diferente da Ciência.  

 Terra dos Sonhos

Inglaterra foi um grande desafio. Portugal ainda não pertencia à EU e atravessar fronteiras era um processo complicado. Contudo, reconhece que foi uma experiência muito gratificante. “Os nomes que víamos nos livros, trabalhavam ali naqueles laboratórios, mas talvez por causa da pronúncia, ou então por serem de áreas científicas diferentes, muitas vezes as suas aulas significavam ficar a zero do início ao fim. No entanto, não deixava de ser inspirador”.

 Trabalhou imenso no laboratório, aprendeu a viver sozinha, a viajar e a escrever bem em inglês. E também aqui, o seu lado de participação social e cultural não esmoreceu. Na “Field station”, em Ascot, perto do Imperial College, havia um Pub, que era gerido pelos estudantes por rotatividade. “Inscrevi-me no Pub rotation e então aprendi a mudar barris de cerveja, servir ao balcão e fazer shandies”. Alexandra Correia diz que Célia Pais é das pessoas que conhece com mentalidade mais aberta. “É alguém que não teria problema algum em fazer qualquer tarefa ou aceitar ideias novas.”

 Meros transeuntes no passeio dos prodígios

Gostava de trabalhar em nematologia, mas o departamento de Biologia, na altura sob a direção da professora Cecília Leão, afirmava-se na microbiologia. Assim, começou a orientar o seu trabalho para a identificação de leveduras. “No fundo, desde os tempos da nematologia a minha investigação sempre foi desenvolver métodos de diagnóstico para diferenciar espécies e estirpes”.  Atualmente e após um longo caminho, trabalha maioritariamente com leveduras na área da saúde.

Algo que também a faz sentir compensada por trabalhar em microbiologia é a área da biotecnologia e bioeconomia, onde participa desde 2009 em projetos europeus. Estes incidem na utilização de subprodutos por microrganismos para produção de produtos de valor acrescentado. “Comecei por trabalhar com leveduras na área alimentar, depois em processos patogénicos e agora com aplicações biotecnológicas. Os fungos estão no centro da minha investigação e acredito que vão estar até ao final da minha carreira científica”.

 O lado errado da noite

 Relembra, com entusiasmo, a professora de Francês do liceu, que declamava poesia nas aulas e com quem despertou para a cultura francesa. Destaca Jacques Prevert, de quem recita alguns versos: “En sortant de l'école, nous avons rencontré un grand chemin de fer qui nous a emmenés tout autour de la terre dans un wagon doré”. Declara a sua admiração por Manoel de Barros e elogia Nuno Júdice e um poema fantástico que escreveu sobre este autor aquando da sua morte.

Ao falar de música, tira da carteira um CD de John Coltrane: “este álbum ainda nem ouvi, tenho-o aqui para ouvir no carro”. Desde o festival de Cascais em 1972, onde ouviu Miles Davis, Jean Luc Ponty e Dave Brubeck, que vive fascinada pelo Jazz. “Vou todos os anos ao Guimarães jazz, este ano vi a Carla Bley e a orquestra de Charlie Adam”. Destaca que um dos melhores espetáculos que viu recentemente foi o do Jorge Palma na Casa da Música. “Adoro o lado errado da noite”, diz com o olhar entusiasmado de memórias.

 A gente vai continuar

Considera que o que mais mudou na Ciência foi a existência de financiamento, outrora muito reduzido, bem como os centros de investigação, praticamente inexistentes à época. A partir de Mariano Gago, a Ciência em Portugal mudou radicalmente. Os financiamentos passaram a ser mais regulares e passaram a existir bolsas de investigação, portanto passou a contratar-se bolseiros.

Não tem dúvidas, que hoje, Portugal, conquistou um lugar na ciência europeia e mundial. “Passamos a ser reconhecidos e competitivos e conseguimos atrair financiamento e manter qualidade científica”. Reconhece que um constrangimento atual é o grande enfoque na ciência aplicada e isso influencia a forma como se orienta e se fazem as perguntas científicas. “A descoberta das coisas deveria ser espontânea e livre de imposições, mas compreendo que é necessário justificar o investimento”. 

Para Célia Pais, uma das coisas mais compensadoras da ciência, é a oportunidade de poder ensinar e aprender. Partilhar e levar conhecimento a diversos lugares e participar juntamente com outros das novas descobertas. Mais ainda, há o contacto humano e cultural, que alarga os horizontes e, que “também fazem parte do nosso Estar na ciência”.

 

Andreia Pacheco

*O título e subtítulos são nome de músicas de Jorge Palma

 

 

 

 

 

 
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